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My pleasure
 
Tive o privilégio de ouvir por duas vezes, em Buffalo, naqueles seminários de que tanto gosto, um certo antropólogo francês apaixonado pela vida nos Estados Unidos, Dr Clotaire Rapaille. Não sei se exatamente pelo ?American way of life?, mas pelo farto (e curioso) material de estudos de que dispõe o observando. Sempre me recordo de seus ensinamentos. Algumas coisas que ele falou ficaram marcadas na minha memória e volta e meia me voltam à lembrança.

Duas coisas engraçadas que ele observou. Uma é sobre a relação dos americanos com o tempo. Você está num quarto de hotel em qualquer lugar, três horas da manhã, lendo um folheto sobre qualquer produto, e lá está: CALL NOW! Telefone já! E surpresa, sobretudo para um europeu, sempre há alguém para te atender no número chamado, não importa a hora. A outra é sobre o alto desenvolvimento tecnológico e o que poderia, a estas alturas, ainda realmente excitar a imaginação de um americano sobre novas conquistas neste campo. Você diz, por exemplo, a um deles que a NASA está preparando uma nova missão para a lua e ele te responde: Again? De novo? Que coisa mais banal! Uma terceira, que ele confessou encantá-lo nos Estados Unidos, é a maneira de alguns te responderem ? my pleasure?, em resposta a um ?muito obrigado(a).

Eu também, pessoalmente, sempre gostei de ouvi-la, pois expressa muito mais do que qualquer outra coisa que se diga em tal circunstância. Seria algo como ?foi um prazer? te ajudar, te atender, fazer isso para você, te servir... ainda que seja hoje em dia um tanto quanto difícil conseguir que alguém lhe faça alguma coisa assim, com um sorriso, com prazer e de quebra, ainda lhe confesse isso. Se até o velho ?obrigado? anda escasso...

Mas outro dia, lendo (no jornalzinho da Livraria Cultura) uma entrevista com a jornalista Neide Duarte sobre o programa que ela apresenta na TV Cultura, ? Caminhos e Parcerias?, fiquei a um só tempo surpresa e emocionada. Espécie de documentário, este programa está no ar há quase um ano e cada episódio expõe uma faceta do país que poucos conhecem, mostrando soluções diferentes que estão sendo encontradas para tentar minimizar os problemas, esclarece a jornalista no artigo. Vale a pena ler a entrevista, que me emocionou às lágrimas,tanto quanto deve valer assistir ao programa. A surpresa ficou por conta do que ela diz sobre ?a grandeza das pessoas? que ela tem encontrado por estes brasis afora. Nas palavras da jornalista: ? Tudo impressiona e emociona. Não no sentido da pena, mas de humanidade mesmo. Estou fascinada pelo sertanejo, que é tão delicado e hospitaleiro. Acho que é o povo mais bem-educado do Brasil. Eles te dão uma informação e dizem Tive muito prazer. E é incrível como são solidários?.

Tive muito prazer. De ler a entrevista, de saber sobre o programa, de saber que no meio do sertão inóspito existem pessoas que, ainda que carentes de tantas coisas, têm essa delicadeza no tratamento com o outro.

A mim, já me bastaria, que, por estas áreas menos endurecidas pelas intempéries, as pessoas voltassem a usar sempre que necessário, aquelas três simples, porém eficazes (quase mágicas) palavrinhas: por favor, obrigado e com licença.

Não seria um prazer?

Sumara Lopes [slopes@sp.senai.br]
09/11/2004

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