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ONG ela faz em casa
Vitor Sznejder
09.11.2005 | O bairro da Chatuba, no município fluminense de
Mesquita, é área devastada, cenário de pós-guerra, pobreza absoluta, calor abafado. Fica a 45 minutos de carro, a partir do centro do Rio. Uma farmácia numa esquina, alguns cavalos magros sobre a calçada, uma padaria noutra esquina, vários botecos, uma pracinha chamada de "Três Poderes". Em frente à praça, encontra-se a ONG Mundo Novo da Cultura Viva, criada por Bianca Simãozinho Carvalho, de 19 anos recém-completados. Aos nove anos de idade, muito antes de ouvir falar em responsabilidade social, ela já queria transformar a sociedade através da educação.
Afora pequenas parcerias, auxílios e doações, Bianca e a sua família tocam a ONG sem nenhuma ajuda do Estado, da Igreja ou de empresas. "As pessoas não acreditam em projetos como o meu, acham que não vai dar certo e não têm interesse em ajudar", diz a garota a NoMínimo. Bianca sente inveja das favelas da Rocinha e do Vidigal, na zona sul do Rio. "Elas são visíveis... nós, não: isto aqui é a
Baixada Fluminense".
"Isto aqui", ou "do lado de cá" é como Bianca e família se referem a Mesquita; "do lado de lá" ficam os bairros de Bangu e Padre Miguel, zona oeste do Rio, onde há comércio, escolas e mais alternativas culturais. Foi nesses bairros que Bianca teve a oportunidade de estudar e conhecer uma vida melhor. Decidiu voltar à sua comunidade e lutar para oferecer às crianças um "mundo novo" e uma "cultura viva" - esta última especialmente importante para uma região sem cinema, teatro ou lona cultural.
Proteína, uma raridade
O espaço ocupado pela ONG, uma casa modestíssima com uma área livre nos fundos, já abrigou 150 meninos e meninas carentes do morro da comunidade (Bianca não gosta de dizer "favela"). No momento, são 96 crianças, às quais Bianca, sua família e 20 voluntários oferecem creche, alfabetização, pré-escola e reforço escolar; oficinas de teatro, desenho, artesanato e culinária.
Todos os dias, de dez a 15 mães fazem fila no portão, mas a ONG não tem recursos para acolher mais ninguém – exceto quando algum dos alunos falta por três dias seguidos. Crianças faltosas abrem vagas para as que aguardam na fila, por ordem de chegada.
Por "falta de recursos" entenda-se que não é possível, no momento, pagar o ônibus de ida e volta dos voluntários (seis reais para cada um); o aluguel da casa, de 380 reais, é pago a duras penas pela família de Bianca, especialmente pelo salário do pai, o único com emprego fixo; várias contas estão vencidas; o pão, o arroz, o feijão e algumas frutas vêm de doações. Proteína animal é mais difícil. Para comprar carne, é preciso recolher e vender garrafas, ou promover bazares, ou encomendar a prazo (por 40 centavos) e vender à vista (por um real) adesivos da ONG. "Dizem que não, mas ainda há muita gente boa por aí...", comenta a tia Luciana, de 31 anos, uma espécie de diretora de marketing da ONG.
Rosto bonito, corpo miúdo, Bianca é precoce em tudo - inclusive na maturidade. Começou a ler aos cinco anos; escreveu seu primeiro livro aos nove e tem outros prontos, à espera de uma editora; fez cursos de pintura, informática e teatro; está no primeiro ano de Serviço Social numa faculdade particular em Bonsucesso que lhe concedeu uma bolsa de estudos.
O livro infantil “Reino de amor” (Editora Litteris, 1999) foi o começo de tudo, pelo menos "oficialmente". Bianca tinha 13 anos, fez uma tiragem de 200 cópias e, para divulgá-la, reuniu amigos e crianças do bairro e criou pequenas apresentações teatrais. Um amigo da família a convidou para lançar o livro no teatro João Caetano, durante uma festa do Dia das Crianças. Sucesso, crianças pedindo autógrafos e querendo tirar fotos com a autora, que relembra: "Foi quando eu tive a idéia de continuar a oferecer aulas e ensaios de teatro, pois percebi que era uma motivação para as crianças. Elas vinham e ensaiavam com seriedade, gostavam mesmo. No princípio, vieram 50, mas em pouco tempo já eram cem, ocupando todos os cômodos da minha casa. Como eu queria oferecer outras oficinas, minha mãe, que sempre me ajuda, alugou outra casa para a realização dos projetos".
Em tempo: a ONG não tem computador (o que usa é emprestado), mas tem
site.
Asceta, mas vaidosa
O dia típico de Bianca começa às cinco horas da manhã, em Mesquita, onde mora num pequeno apartamento com os pais, a alguns metros da ONG; caminha três quilômetros até a estação do trem que a leva à faculdade (uma hora de viagem); de Bonsucesso volta a Mesquita para almoçar em casa e trabalhar na ONG durante a tarde. De noite e nos fins de semana, está na sede da Igreja Evangélica Ministério Apascentar de Nova Iguaçu.
Lá, além de rezar, Bianca freqüenta um curso de formação de líderes e outro de teatro. Às 23h, antes de dormir, arruma o seu quarto, reza, estuda a Bíblia e ouve um pouco de música numa rádio evangélica.
Não tem tempo nem interesse para acompanhar política – local ou nacional. A recíproca é verdadeira: a prefeitura de Mesquita desconhece a sua obra. No entanto, Bianca poderia eleger-se facilmente vereadora do município: não lhe faltam convites, como não lhe faltariam votos (para a Câmara Municipal de Mesquita, precisaria de exatos 2 mil votos).
Bianca é extremamente carismática, no sentido que o “Aurélio” dá à palavra: "Carisma: atribuição a outrem de qualidades especiais de liderança, derivadas de sanção divina, mágica, diabólica, ou apenas de individualidade excepcional".
E é uma asceta: come pouquíssimo, não se cansa com jornadas de até 18 horas diárias e - por último, mas não menos importante para uma jovem de 19 anos - não tem namorado. "Precisaria ser alguém da minha Igreja e que suportasse o meu pique", avisa.
Bianca Simãozinho Carvalho nunca ouviu falar de Madre Teresa de Calcutá nem da Irmã Dulce de Salvador, mas vem da mesma cepa, com uma diferença: Bianca é vaidosa e faz questão de arrumar os cabelos antes de ser fotografada. Graças a Deus.
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